Apesar da tendência de redução do número de casos de infeção por VIH, em Portugal nunca é demais reforçar uma mensagem essencial: a importância do diagnóstico precoce como passo determinante para o tratamento e controlo da doença.
Quem, como eu, teve o dever profissional, e o desafio, de acompanhar doentes desde os primeiros casos registados em Portugal até aos dias de hoje, tem uma perceção muito clara do papel absolutamente central do diagnóstico.
São poucas as situações na história da medicina em que, ao longo de apenas algumas décadas, se tenha assistido a uma evolução tão significativa no tratamento de uma doença que era, na prática, quase sempre fatal. Nos primeiros anos após o aparecimento do VIH/SIDA, o prognóstico era mesmo mais grave do que o de muitas doenças oncológicas.
Ainda não se chegou à etapa seguinte, que será a cura definitiva e a erradicação do vírus. No entanto, os tratamentos atualmente disponíveis permitem que, na grande maioria dos casos em que o diagnóstico não seja demasiado tardio, as pessoas infetadas que cumprem corretamente a medicação façam uma vida praticamente normal, com uma esperança média de vida semelhante à da restante população.
Se quisermos fazer um exercício comparativo, podemos recordar a diabetes tipo I antes da descoberta da insulina, ou doenças infeciosas graves como o tétano, cujo impacto foi drasticamente reduzido através da prevenção e do tratamento adequados.
Os benefícios da terapêutica fazem-se sentir a dois níveis, que estão diretamente ligados: o individual e o da saúde pública.
Do ponto de vista individual, a pessoa infetada deixa de adoecer gravemente e de morrer devido à infeção, podendo manter uma vida ativa e com qualidade. Ao nível comunitário, o doente que cumpre a terapêutica e é acompanhado em consulta da especialidade atinge, na maioria dos casos, uma carga viral sustentadamente indetetável. Isto significa que o vírus deixa de estar presente no sangue e nas secreções, reduzindo o risco de transmissão na vida diária enquanto o tratamento é seguido.
Em Portugal, importa ainda sublinhar que estão disponíveis, de forma gratuita, todos os medicamentos de referência existentes, desde que prescritos em consulta hospitalar da especialidade. Uma realidade que não se verifica em todos os países, incluindo alguns considerados desenvolvidos. O teste diagnóstico é simples, realizado através de uma pequena amostra de sangue, não exige jejum e está protegido por critérios rigorosos de confidencialidade.
Mas para tratar é preciso diagnosticar. É fundamental saber se se está, ou não, infetado, mesmo na ausência de sintomas.
Por isso, a pergunta final é simples e direta:
porque espera para fazer o teste?
Marque a sua consulta.
João Farto e Abreu
Especialista em Doenças Infecciosas pela Ordem do Médicos
Consultor Hospitalar de Infecciologia